“Moscou é uma cidade muito perigosa”, me alerta o Guenadi Valigura. Estamos no trem elétrico que nos leva de Kharkov até Belgorod, na Federação Russa. Os assentos do trem são de madeira, como bancos de praça. O trem está lotado, e o pessoal carrega seus pertences em bolsas “paraguaias”, muito comuns por aqui. Mais ao fundo do vagão, quatro senhores barrigudos tenteiam o carteado sobre uma mesa improvisada de papelão. A cena não é estranha. Se rolasse uma bocha pelo corredor do vagão, diria que estamos no Clube “Doro” da Linha Dorada em Porto Lucena.
O maior perigo aqui da região são os próprios Estados. Ucrânia, Bielorússia e principalmente a Federação Russa são típicos Estados policiais, com alguns traços totalitários remanescentes, como culto à imagem do chefe de Estado, patrulhamento ideológico e repressão à oposição. O primeiro-ministro russo Vladimir Putin, e o recém-reeleito presidente da Bielorússia, Alexander Lukashenko, já lograram mandar pra jaula seus principais inimigos. Já o presidente ucraniano, Viktor Yanukovich, e toda sua banda, movem nada mais do que três processos contra a ex-chefe de governo Julia Timoshenko (aquela das tranças gigantes), além de perseguir demais líderes da oposição ao longo do país.
Num escalão mais baixo, nós, cidadãos e turistas comuns, temos que lidar com a polícia nacional ucraniana, a famosa Militzia, que é o maior bando de babacas em uniforme que já vi. Não sei qual é a orientação governamental para os procedimentos policiais aqui, talvez nem haja. Mas francamente, não me é claro o porquê de toda essa paranoia. Eu já fui “controlado” mais de dez vezes, quase sempre de maneira truculenta. Uma vez descartada a possibilidade de o transeunte ser uma ameaça nacional, eles procuram qualquer motivo para justificar a aplicação de uma “Straf”, uma “punição” aplicada em dinheiro. O Guenadi sabe desses perigos, e por isso reza. Ele é judeu messiânico, ou seja, um judeu que acredita que o messias (Cristo) já veio, ao contrário dos judeus tradicionais que ainda o esperam.
O nosso trem se aproxima da zona fronteiriça, onde viemos a dar de cara com um verdadeiro abelheiro policial. A cinco quilômetros da borda ucraniana, a máquina se detém. Passados alguns minutos, dois sujeitos à paisana entram no vagão e se dirigem diretamente a nós: “quem são vocês, de onde vêm e para onde vão!?”. Vamos a Belgorod, e ele segue mais tarde a Moscou, respondeu o Guena em bom russo. Mal havíamos apresentado os documentos e os dois sujeitos se retiraram tal qual lebres. O trem retomou marcha e então emergiram os policiais da imigração, que registravam num palmtop as saídas e carimbavam os passaportes. Por fim, chegaram até nós. “O que é isso?”, perguntou o milico enquanto folhava o meu passaporte afoitamente. Brasilia, contestei. “Brasilia?!”. Mais algumas folhadas e me diz “capoeira”. “Tu lutas?” “net net net”. Carimbou meu passaporte, tecnicamente já deixei a Ucrânia, pensei. Então, ele fixa sua atenção no meu visto ucraniano, que é a única coisa que ele é capaz de entender porque está em cirílico. Ele movimenta a cabeça negativamente com seu quepe fôrma de pizza: “hum, acho que vou arrancar o teu visto do passaporte”, diz. O Guena não acredita no que ouve e solta o famoso riso amarelo. Tenta articular algo, mas o milico o interrompe, toma entre os dedos a folha do passaporte que contém o visto e reafirma “sim, vou arrancar essa folha”. Todo o vagão está filmando a cena. Então, o milico solta um sorriso no canto da boca e me devolve o passaporte intacto, dando fim aos seus instantes de palhaço. Só pode ter dormido com o Bozo pra andar fazendo esse tipo de piadinhas. Ele se dirige até a entrada do vagão e faz um telefonema. O Guena está tenso, junta as mãos e começa a rezar. Logo mais, oito policiais sobem no vagão e se aproximam de nós. Logo atrás vem o chefe, que é o que toma o meu passaporte novamente. O chefe é mais velho e tem um quepe maior. Outros três policiais continuam o trabalho de imigração. No total são doze policiais para trinta e cinco passageiros. Todos os doze querem ver o passaporte, e para isso, juntam suas cabecinhas em volta do chefe. Com certeza, foi a primeira vez que viram um passaporte brasileiro nesta fronteira remota. Finalmente me devolveram o documento verde, e o trem retomou o passo.
Do lado russo, o procedimento de aduana foi mais ou menos parecido. Primeiro vieram dois sujeitos à paisana. Acercaram-se e perguntaram se eu tava vacinado. “Eu não preciso de vacina”. Horosho, e se foram. Logo vieram dois tipos a checar as bagagens. Não só abri a mochila, como tive que abrir e folhar o meu livro, que todos sabemos que é um clássico escondite de contrabandos. Um dos tipos trouxe abaixo a mesa improvisada dos senhores do carteado, a verificar se não carregavam nada ilegal por debaixo. Logo vieram os da imigração. Tomou meu passaporte e de prima largou “Pelé!”. O milico que estava ao lado se aproximou e cheio de entusiasmo disse “Edson Arantes do Nascimento!”. Não escondi a alegria. Mais uma vez o esporte trabalhando pela integração dos povos. O milico que sabia o nome completo do rei pediu espaço para sentar à minha par no banco de madeira. Começou a folhar o passaporte e dizia “fantastic, fantastic”, “conhece o Spartak Moscow?”. Da da, respondi, e conheço o “CSKA de Moscow e também o Zenit de Sankt Petierburg”. “Ohhh... maladietz”. Sacou o celular e fez uma ligação. Prontamente chegou uma penca de milicos, mais de dez, que somados aos que já ali estavam eram mais de quinze. Todos ansiavam em ver o passaporte. É como se estivessem buscando a vida toda por isso, como o ninja Jiraya e sua turma que passavam procurando por Paco. Nesse caso, a milícia russa encontrou Paco. Dois dos milicos chegaram ao ridículo de brigarem pelo passaporte, que passava de mão em mão. Cada um agarrou-o por uma ponta, e disputaram curtamente a relíquia emitida em Honduras, no abrigo do Mel Zelaya, com alguns campos preenchidos porcamente a caneta BIC. Cessada a breve rinha, o verdinho me foi devolvido. A penca de milicos da imigração se retirou, a mesa de carteado retornou aos senhores barrigudos, e o Guena finalizou a reza.
Bem-vindos à Federação Russa.
(continua)
Mas ahhhh, dia de estrela, haahaha. A vida deles nao deve ser mto emocionante.
ResponderExcluirTu e tua sina com policiais... Credo! Ta virando rotina isso ai. To doida pra ler o proximo capitulo...
hahaha, demais a descrição, meu!
ResponderExcluire tu ainda reclamava de voltar pra marcar no time dos bergamotas assassinas.
Digo que não interessa o grau de tirania tu sempre vai ser um reclamante!
abraço e aguardamos seu retorno.