Pois bem, quero meu livro de volta, e para isso me dirijo ao balcão de Informatzia no intento de conseguir alguma informação do paradeiro dele. Duas moças simpáticas com computadores a tira-colo me atendem e dizem que ‘sim, um livro foi encontrado no trem de ontem que veio de Belgorod. ’ Ah, legal. ‘Mas ele já está encaminhado para voltar a Belgorod no trem das 22 horas. ’ Suka, eu também retornaria a Belgorod neste dia, só que no trem das 19 horas. E antes que o trem das 22 chegasse, eu já estaria de novo no trenzinho elétrico rumo a Kharkov, merda. E foi quando eu já dava meu kniga por perdido, que uma alma prestativa se pronunciou. Na verdade duas. ‘Eu vou nesse trem, posso pegar teu livro. ’ Ela é a Nadia, uma sessentona que ouviu toda a nossa conversa e se prontificava a recuperar o meu livro. ‘Ouvimos que tu moras em Kharkov, nós também somos de lá, apenas moramos em Kursk, na Rússia. No fim de semana o Michail, meu marido, vai pra Kharkov e pode levar teu livro’. É um casal humilde, nota-se facilmente pelas roupas de mais de 30 anos de uso e pela morbidez dos rostos. O Michail, que me mira atentamente, reduz os três passos que nos distanciavam: ‘Deve ser um livro importante’. ‘Da, da. Li mais da metade, quero a outra metade ainda.’ ‘Onde está a tua mulher? ‘, me pergunta. Nadia interrompe a perguntinha capciosa do marido e me pede que lhe escreva o número de telefone e nome do livro, em cirílico, porque não entende esse alfabeto latino.
Depois de nos despedirmos, dirijo a carcaça até a grande sala de espera. Ainda faltavam duas horas para a partida do trem, precisava descansar um pouco, a viagem seria longa, apertada e abafada. Mal me sento, e o Michail aparece de sopetão. Ele não joga a conversa fora, vai direto ao ponto. ‘Cadê tua mulher?` Argamassa, que bafo do Micha. Eles passam comendo peixinhos secos ao sal, daí o hálito horrendo de sopa de aquário. ‘Não tenho mulher, tenho apenas namorada. ’ ‘Horosho, mas não tá contigo aqui, né?’ ‘Niet.’ Me disse adeus e vazou finalmente. Dormito de leve, mas em menos de dez minutos, um odor forte, um extrato de cachalote desponta à minha esquerda. É o Micha que se tele-transportou e está sentadinho ao meu lado, com um grande sorriso dourado, o chamado boca-rica. E acontece o que eu já esperava. Ele saca um retrato do casaco. ‘Olha aqui, essa é a Tânia, minha filha, solteira. ’ Trato de valorizar um pouco a sua mercadoria. ‘Que bonita, parece que puxou pro senhor, o que ela faz?’ ‘Ela é musikantin em Dniepropetrovski (onde joga o Giuliano), já tem 28 anos e ainda é solteira. ’ Aqui se diz que 23 anos é a idade da mulher casar, e a família exerce relativa pressão para tal. Na Ucrânia não existe mulher solteira, todas têm namorado. Passam fazendo ponte de uma relação para outra, anulando aquele espaço inter-relacionamento que proporciona o (falso?) sentimento de “liberdade”. É uma vergonha estar sem o seu Sputnik, que em russo significa “o acompanhante”. As vaidosas soviéticas fundamentam sua preocupação: ‘Após os 23, a beleza começa a nos abandonar, e então não casamos com quem queremos, senão com o que sobra. ’ É o que dizem.
Acredito que a Tânia não aprove que o seu pai saia por aí procurando arranjos concubinários. Ao mesmo tempo interpreto o Michail sobretudo como um pai aflito, que me visualizou como uma catapulta pra lançar sua filha pra fora da Ucrânia, como um satélite. A propaganda ocidental vendeu uma imagem distorcida ao leste, que diz que vida no oeste é fácil, “livre” e que se costuma ir às compras no mesmo passo que os ortodoxos vão à igreja. Se pudesse, eu abriria as portas do ocidente para que todos gozem de sua bonança. Agora, quem garante que a vida vai ser melhor lá ou acolá? A vida não sorri pra todos. Mesmo desaprovando seu método, agradeci ao Michail pela confiança em querer fazer negócio comigo. Apenas lhe sugeri que troque a foto de rosto da Tania por uma de corpo inteiro, para uma melhor análise do material.
Nunca recebi o livro de volta.