O comboio arribou na capital vermelha às nove em ponto. O Nikolaj, amigo do Guena, me recebeu na estação central. Submergimos no metrô e em dez minutos já estávamos vislumbrando a Praça Vermelha, que ao contrário do que parece, já carrega esse nome desde muito antes do bolchevismo. Ao fundo está igreja colorida de St. Vassily, mais à direita o Kremlin, que é a residência governamental, e no centro da Krasnaia Ploschad está o mausoléu onde repousa o corpo do camarada Lênin. Passamos os detectores de metais e nos dirigimos diretamente ao mausoléu. Uma alcateia de militares nos indica o caminho, e após descer alguns lances de escada topamos com uma sala escura, dando de frente com o grande líder. O tavarish Lênin morreu em 1924, teve seu corpo embalsamado e colocado então à visitação do público. O personagem mais importante do séc. XX, segundo Hobsbawm, é um sujeito retaco. Sua múmia repousa em um sarcófago de vidro alumiado por luzes vermelhas. Está proibido tomar fotos. Ele veste um terno negro, e um pano também negro lhe cobre até a cintura. Por baixo do paletó uma camisa branca, e no pescoço uma gravata azul-escuro com bolinhas brancas. Seus braços estão estirados sobre o pano negro, tendo o punho direito fechado, e o esquerdo aberto. Sua careca é lustrosa e as orelhas são muito diminutas. Vladimir Ilitch Lenin, uma “liderança”.
O Kolia (encuratamento de Nikolaj) é um ucraniano moreno da região mineira de Donetsk. O cara parece uma porta de igreja, devido ao seu tamanho. Trabalha na cidade mais cara do mundo como instrutor de academia (claro) e pratica luta Greco-romana. Ademais de guia, o Kolia me serve de segurança, o que é muito bom, “Moscou é uma cidade muito perigosa”. O cara é tão forte, que o pessoal na rua pede pra tirar foto com ele. Na cidade mais cara do mundo, Kolia trabalha sem documentos. Ele diz que fala com sotaque moscovita, e que ninguém pergunta a ele de sua origem. Talvez tenham apenas medo, por isso não perguntam. Encontramos o meu hostel, e nos despedimos.
No dia seguinte, depois de caminhar pela cidade, retornei à Praça Vermelha, onde o bacanal estava armado. Um cardume de jovens circulava pela praça celebrando o fim do ano letivo. Sobre um palco gigante apresentavam-se incontáveis grupos de dança e canto. Também havia pequenas oficinas de esportes variados e demais atividades, inclusive Paint-ball. E no centro da praça, ao lado do mausoléu do Lênin, uma cancha de futebol, onde vermelhos contra brancos, bolcheviques e mencheviques, se digladiavam. Os vermelhos venceram, é óbvio. Mais ao fundo vejo que uma grande estrutura de metal está sendo montada, provavelmente para um grande concerto. Vou conferir e descubro que Shakira, a pimenta de Barranquilla, chacoalharia as cadeiras naquela noite, armando o surungo a uns setenta metros da tumba do líder.
A URSS não existe mais, porém, este passado se faz muito presente na sociedade russa atual. Em Moscou, tudo se desenvolve “sob os olhos” de Lênin, desde o Kremlin que fica às suas costas, até os jovens, que crescem e se desenvolvem ao redor do mausoléu. Com a extinção dos sovietes, algumas estruturas do país foram desvirtuadas. Moscou é a cidade com o maior número de milionários de todo o planeta. E, além disso, alberga um grande número de organizações mafiosas. Entrementes, pode ser que nesta noite um novo processo revolucionário tenha início. Shakira se apresentará a uns poucos metros do mausoléu. Alguns acreditam firmemente que o Waka Waka fará Lênin despertar - porque essa colombiana levanta qualquer morto – para então trazer de volta a tão sonhada ordem ao país.
Hahahahahaha, tu eh foda mesmo. Shakira despertara o Lenin, hahaha.
ResponderExcluirbjos de uma farofeira nata.