Aqui em Kharkov neva todo dia. Pelo menos assim tem sido desde que cheguei, há um mês. A neve é muito bonita sim. Concordo. Contemplar os campos cobertos por aquele branco, a paisagem alva, bah, lindo. Mas a neve também dá muito trabalho, e às vezes pode ser traiçoeira. Sacar a neve da calçada a pazadas e cavocar o gelo da entrada da garagem é atividade rotineira do cidadão residente na Ucrânia.
Um avião rosa pinque com aeromoças rúbias me trouxe até a pista branca do aeroporto de Kiev. Lá me aguardavam sorridentes Rosetchka e o reverendo. Há tempos não nos víamos nem tocávamos. De pronto, às 4 da tarde tomamos o avtobus ali mesmo nas imediações do aeroporto, ao lado dum pinheiro azul de natal, e tocamos pra casa, Kharkov. Foram dez horas de trecho sobre uma pista congelada, escorregadia, bailando um pra lá dois pra cá. Não foi fácil. O reverendo, que é daqueles senhores que dirige junto com o motorista, não desgrudou os olhos do trecho. E quando o ônibus ameaçava encontrar o barranco, balbuciava: “o-o-pa”. Mas não é bobo esse motorista! Desejava ter a frieza dos que sentavam ao meu lado. Dele papo e risada. Desejava também um trago da vodka deles. O ônibus não tinha toalete. E quando raras vezes parava, a tropa descia desesperada procurando o toalete e ascendendo o pito. E lá do toalete, ainda com a peça na mão, já se escutava o motorista, num azedume, buzinando e gritando e mandando todo mundo entrar de uma vez no comboio, que era tarde, que sua senhora lhe esperava, que queria ver os gols da rodada etc.
Chegamos na praça rodoviária de Kharkov lá pelas duas e meia da madrugada. Que frio. Que gelo. Bom, aqui é tão frio, que ao urinar, o teu líquido se esfumaça de imediato ao tocar o chão. É como se desfazer da água da chaleira.
Acompanhados por cães solteiros esperamos uma hora inteira pelo táxi. Até que o Lada Sedan anos oitenta aparcou. Negociamos o preço com o taxímetro de língua e largamos para Olkowka (leia-se Alcovca), o nosso bairro. O asfalto estava congelado, mas trilhado, o que facilitava a lida no volante para o Serguei, nosso chofer. Deixamos a faixa e percorremos mais ou menos um quilômetro sobre o que supostamente seria uma estrada de chão batido para então alcançarmos nossa casa. Alarmante a imagem da rua congelada. A neve que há dias havia-se acumulado derretera numa tarde de sol, mas ao cair da noite, com a queda de temperatura, congelara o líquido que antes fora neve, presenteando-nos esse espelho ensaboado: nossa rua. O Serguei, conhecedor de sua terra, estacionou o Lada na lateral da rua, sobre um banco de neve, de maneira que pudesse arrancar sem patinar. Estávamos exaustos, mas contentes, por fim chegávamos ao aconchego e calor do lar. Passados alguns poucos minutos, enquanto sacávamos os sapatos, alguém golpeou a janela. Era o taxista, Serguei. Perdido? Dificilmente um taxista se perde. Ao dar meia volta na rua inclinada, o táxi não lograva mover-se do lugar. Empacou. Só patinava. Saudosos de empurrar a velha Caravan do vô, e prestativos que somos, reverendo e eu saltamos porta afora, prontos para servir. O táxi branco estava a menos de cem metros rua abaixo. Fui à frente, com minhas botas ranhuradas, deslizando como se levasse patins nos pés. Atrás vinham Serguei e reverendo, que calçava seu sapato sola lisa de coveiro. Já quase tocava a lata do carro quando um berro de morte sacudiu as estrelas do céu. Virei o pescoço e mirei uma das cenas mais duras da minha vida. O reverendo havia escorregado e caído de cabeça, com todo o peso de seus pecados. Corri até o seu corpo estaqueado de bruços, virei-o desesperado, e o sangue verteu do seu rosto. Tentei afastar o sangue com a palma da minha mão. Ele corria suavemente. Notou-se que não era grave. Que bom.
O velho recuperou os sentidos e pediu que o levantasse, deveríamos empurrar o taxi. Com a cara rasgada, o reverendo e eu empurramos o Lada Sedan de ré até um banco de neve lateral, de onde o carro arrancaria sereno. O Serguei desceu da máquina, e num gesto de gratidão e comoção, sacou um lenço umedecido e ofereceu-o ao senhor que sangrava. Dado o adeus ao Serguei, tomei o reverendo pelo braço e fomos ao banheiro para cuidar das feridas. Por falta de gelo, colhi neve do pátio e numa bolsinha levei-a até o seu rosto. A face esquerda e o lábio superior haviam golpeado com muita força esse terreno eslavo.
Na cara inchada e torta do meu pai, o cartão de boas vindas à terra estranha, já cansada de ver sangue.
Naquele dia, bebi vodka com pimenta e mel. E chorei.
Melhoras para o reverendo - de uma brasileira um tanto alegre! A alegria sempre ajuda.
ResponderExcluirMuito bem descrito e expressado tudo o que vcs estao vivendo. Meus guerreiros. Fernanda.
ResponderExcluirMelhoras para esse guerreiro que nos deixa cheio de saudades! Um grande abraço
ResponderExcluirPra quem já levou "tantos tombos da vida" esse ele tirou de letra.... levantou mais forte ainda. Abraços Marlene
ResponderExcluir