A festa teve partida com o desfile de alguns batalhões em trajes e veículos militares do tempo da segunda guerra. Tanques, caminhões, jipes e alguns canhões móveis eram grande atração para alguns aficionados. Um grupo de belas enfermeiras ucranianas – o sonho de todo soldado ferido - em trajes antigos desconfortavam a outra leva de aficionados. “Me interna, me interna!”, gritava o rapaz ao lado.
Sobre uma caminhonete de carga, dançavam dois pares ao som de um gaiteiro que se recostava sentado no fundo da carroceria. No chão, um grupo de jovens milicos se alternava para empurrar a velha máquina, palco ambulante que havia enguiçado, e que seguia no ponto-morto. Bonita cena.
Mais ao oeste do país, na cidade de L´vov, capital dos nacionalistas ucranianos, sua população celebra o nove de maio de uma maneira diferente. Para eles, este é um tempo para recordar não só os massacres causados pela Alemanha nazista, como também o totalitarismo comunista da ex-URSS, colocando assim, ambos os regimes no mesmo plano. No entanto, os ânimos populares vêm se acirrando gradativamente. No último dia nove em L´vov, jovens mascarados cercaram alguns veteranos de guerra aos gritos de “fora moscovitas”, e lhes arrancaram as medalhas do peito. Para os ucranianos pró-rússia esse “ataque aos heróis da pátria” foi um tremendo disparate. Acontece que os ucranianos nativos – de origem e língua – foram duramente sufocados pelo regime soviético, principalmente por Stálin, e consideram as comemorações da Pabieda (Dia da Vitória) um deplorável culto de louvor à Rússia.
Admito que não vejo muito o que celebrar por aqui. Aparte das importâncias individuais na experiência da guerra, hoje, enquanto a derrotada Alemanha manda e desmanda na União Europeia, a Ucrânia vencedora está de joelhos à corrupção, à máfia, e à bondade dos senhores da Gazprom. Creio que o pleito da questão da identidade local vai se definindo em torno do sucesso econômico. Tivesse a Ucrânia independente alcançado um bom desenvolvimento econômico, os confrontos seguramente amainar-se-iam. Mas o fato é que desde a independência em 1991, a situação só tem piorado. E consequentemente, a simples análise que o povo faz é a de que “nos tempos da URSS as coisas estavam melhores”. E como as pessoas dificilmente conseguem analisar a história “más allá” do seu umbigo, olvida-se dos massacres, deportações e demais crimes à humanidade exercidos pelo regime estalinista contra as minorias étnicas.
Em Kiev, observei uma marcha pacífica que clamava pelo retorno do comunismo à Ucrânia. Eram umas três mil pessoas, e me impressionou a quantidade de jovens presentes. Em especial minha atenção se fixou numa moça que carregava um quadro de Joseph Stalin com o cuidado de quem transporta um ícone ortodoxo. Ele é o símbolo da vitória.
Do outro lado da rua ronca um motor possante, com rodas grandes e lataria brilhante. Um cidadão dá uma cavalo-de-pau montado no seu Porsche, provocando e assustando os manifestantes. Ele vocifera: “comam merda proletários. Vejam o que o mercado livre me deu!”
...cenas da luta de classes ucrâniana...
ResponderExcluirque interessante...
ResponderExcluirme parece um povo sofrido e triste... pelo menos eh o que os teus posts me passam.